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O dia em que eu saí de casa…

… minha mãe me disse “filho vem cá”.

Não, eu não vou cantar sertanejo aqui no post, mas o título realmente faz jus ao texto.

A verdade é que eu não sai de casa (NÃO DIGA) mas vou falar sobre um dia difícil no auge dos meus 9 anos de idade: quando meus pais avisaram que íamos nos mudar.

Essa é uma das frases mais assustadoras para as crianças e para mim foi pior porque, pela primeira vez em longos 9 anos, eu tinha amigos com quem brincar.

Quem já leu esse texto sabe que eu não fui uma criança cercada de amigos, na verdade eu assistia Chaves no quintal junto com uns mendigos que se juntavam no portão para assistir também. Enfim, depois dessa época dos mendigos eu mudei para um condomínio, conheci crianças e fiz amizades. Estava tudo bem no reino do Jd. Piratininga, em Osasco, mas eu mal sabia que em breve essa felicidade acabaria, seria substituída pelas temidas palavras.

Era uma noite de sexta feira, acho que Fevereiro ou Março do ano 2000, e minha mãe soltou a bomba “Nós vamos mudar em Abril”. Para onde? Por que? Que dia? Essas não foram minhas perguntas, a única pergunta foi “E meus amigos?” porque eu estava morando naquele lugar há uns 6 ou 7 meses (sim, eu sou uma nômade da tribo Moraes da Costa, prazer) e tinha aprendido a andar de bicicleta, brincar de Mãe da Rua, Polícia e Ladrão, Esconde e Esconde, soltar pipa, atropelar outras crianças com a bicicleta, saber que só porque eu ralei meus dois joelhos inteiros não quer dizer que eu vou deixar de andar para sempre. Coisas assim. E, do nada, vindo de lugar nenhum, eu vou perder tudo isso? Meus pais estão pensando o que? Que minha vida é bagunça?

No sábado de manhã eu saí do apartamento e comecei a dar voltas pelo prédio, queria pensar em como contar para os meus amigos que eu os abandonaria em menos de 2 meses. Não sabia como falar, eu achei que ficaria naquele condomínio para sempre, porque brincar para sempre é bom, certo?

Depois de umas 3 voltas as crianças começaram a descer, elas me viam andando em círculos, em volta do meu prédio, e perguntavam o que estava acontecendo, e o que eu fazia? Ignorava, continuava andando. Como eu ia explicar aquilo? Como contar que um membro do grupo ia embora, sabe-se lá para onde, e nunca mais voltaria? O grupo ficaria incompleto para sempre, porque ninguém me substituiria. Ai mãe, se você soubesse que eu te odiei por um dia inteirinho.

Após mais umas duas voltas no prédio eles saíram do estupor causado pela falta de palavras e começaram a tentar bloquear meu caminho. Eu desvencilhava, brigava, forçava e continuava andando. Não queria contar, não queria conversar, eu estava brava com o mundo inteiro. Isso não era justo, meus pais brigavam comigo porque eu não saía de casa antes, só assistia tv, no máximo subia na árvore do quintal pra tacar coisas em quem passava na calçada (outra história), e, agora que eu finalmente tinha vizinhos legais, eles iriam me levar embora. Não existe amor justiça em Osasco.

É engraçado como para as crianças tudo é definitivo, né? Eu, eventualmente, parei de rodar pelo prédio alguma hora do dia, expliquei para eles, todo mundo ficou triste e não quis correr aquele dia. Mas aproveitamos os últimos meses de brincadeiras com a turma completa e esses meses definitivamente estão na lista de coisas que eu não pretendo esquecer. No dia da mudança a minha melhor amiga ficou comigo o tempo todo, eu dei tchau para ela, para os pais dela e para o resto das crianças, fui embora chorando o caminho inteiro. O que eu ia fazer agora? E se não existir crianças onde eu vou morar? E pior: se elas estiverem lá mas não gostarem de mim? Isso vai ser horrível, minha vida nem começou e já está acabando, que porcaria. Obrigada mãe e pai.

Eu acabei mudando para Cotia, onde vivi por mais de 10 anos, tive ótimos momentos, ótimos amigos e uns não tão ótimos assim. Sai de lá em 2010, voltei para Osasco, e há menos de uma semana eu mudei novamente. Minha família é assim, não ficam parados mas dizem que odeiam mudanças, vai entender.

A Isa mais velha, que saiu de Cotia com 19 anos, não chorou. A que saiu da última casa, aos 22, também não chorou. Acho que a Isa do futuro vai chorar quando sair dessa nova casa, pois ela sairá para ir morar sozinha, sair de perto dos pais definitivamente. Como eu vou viver sem a minha mãe e meu pai? O que eu vou fazer quando precisar de um conselho ou de ajuda com alguma coisa? Não que eu peça muitos conselhos, mas é bom saber que eles estão aqui se eu precisar. E meu irmão, que apesar dos pesares, é minha principal companhia quando estou em casa? E o Juni, o cachorro que briga comigo pra deitar nos meus travesseiros e, quando não consegue, dorme em cima da minha cabeça?

O que eu vou fazer sem eles? Ah, eu vou chorar sim, e muito.

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