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Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, as vezes escondido e as vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Nossa relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdôo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

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Aniversários, roupas que somem e DST’s

Aniversário é uma coisa complicada, né? Na verdade é algo polêmico. Tá, não é um assunto tão polêmico quanto mamilos, mas tá quase lá, poxa vida.

“ANIVERSÁRIOS… São polêmicos.”

Enfim, eu estava pensando e aniversários são difíceis. Tem gente que ama fazer aniversário, ficar mais velho, mais responsável e mais respeitável (Não sou eu que to dizendo isso, afinal, quem faz aniversário e fica mais responsável por isso? Por exemplo, o infeliz que faz 18 anos e começa a dirigir por ai bêbado, uma vez que ele já pode dirigir, comprar bebida e é responsável. Aham, a seu pai também). A verdade é que poucas pessoas maiores de 20 anos gostam de fazer aniversário, só os sub20 realmente gostam porque fazer 20 anos, aparentemente, é mágico… Deve ter algo legal em mudar de digito na casa da esquerda. Você é um ~jovem~, você é maior de idade no Brasil, se estiver na faculdade já tá na metade do curso, é um pseudo-adulto que ainda joga bola com os amigos do colegial de domingo e gosta de assistir Dragon Ball Z antes de dormir. Ou uma jovem bonita, estudiosa, que não deixa a mãe jogar fora as Barbies que estão mofando no armário. Além de, na 1ª viagem só com os amigos, pensar incontáveis vezes “minha mãe poderia estar aqui pra encontrar a minha sunga/parte de baixo do biquíni”.

“To com saudade da comida da minha mamain”

Falando nisso, mães tem o dom de encontrar coisas perdidas em casa. Sei la, deve ser um superpoder que você adquire assim que o filho sai pelo meio das pernas, todo ensebado, sangrando e chorando. Por exemplo, um dia uma das minhas camisas do Palmeiras sumiu, eu revirei meu quarto, o guarda-roupa, o guarda-roupa do meu irmão, o cesto de roupa suja, e nada daquela porra de camisa aparecer. “MÃE, QQ CÊ FEZ COM A MINHA CAMISA DO PALMEIRAS?” e ela, toda galante “TÁ LOUCA, MENINA? ACHA QUE EU VOU QUERER O QUE COM A SUA CAMISETA DE PALMEIRAS? PROCURA NA SUA BAGUNÇA, APOSTO QUE TÁ AI” “NÃO TÁ, MÃE, EU JÁ PROCUREI. QUE SACO, VIU. EU COLOCO AS ROUPAS PRA LAVAR E ELAS SOMEM, APOSTO QUE TEM UM BURACO NEGRO NA SECADORA”, dai a coisa fica perigosa, porque ela respondeu “Menina, se eu for ai procurar essa camiseta e encontrar, você vai ver só”. É nessa hora que você decide: é matar ou morrer; se ficar o bicho pega, se correr o bicho come; mas como eu sou rebelde falei “VEM PROCURAR, ENTÃO” e, claro, ela encontrou. “Eu devia te fazer engolir isso aqui pra você aprender a procurar as coisas direito”.

Mamãe Wins

Enfim, eu tava falando de aniversários, desculpem a falta de concentração, é que to ouvindo música, e quando eu escrevo ouvindo música a coisa fica nessa belezinha, porque eu tenho DDA, não muito do mal a ponto de eu ser meio lesada não conseguir me concentrar direito e errar tudo e divagar e esquecer do que eu tava falando olha um passarinho na janela.

Anyway, aniversários: pessoas que gostam de aniversário são parecidas com as que gostam de Natal. Pois bem, eu não gosto de Natal, porque eu acho idiota (pra caralho) todo mundo “feliz” e “unido” porque jesus nasceu. Dai aniversários são parecidos, porque as pessoas são legais com você só porque você nasceu… Tá, eu até gosto de aniversário quando só pessoas que realmente desejam minha felicidade, saúde, dinheiro e sexo, falam isso pra mim. Mas, por exemplo, tem gente que acha desnecessária essa atenção, uma vez que eles não fizeram “nada” pra que merecessem essas coisas, “jesus morreu por nós, enquanto eu não arrumei nem a minha cama hoje” <- Essa é uma boa frase.

Sei lá, eu gosto do meu aniversário porque eu ganho presentes mesmo, e dai? Uma vez que já não curto tanto “envelhecer”. Esse ano eu faço 21, serei maior de idade em to-dos-os-pa-í-ses-do-mun-do-mi-nha-gen-te, mas nem por isso eu to aqui saltitante, já que isso faz a minha formatura, a necessidade de efetivação no trabalho, casamento, filhos etc, mais próximos. PÂNICO PÂNICO. Mas pelo menos eu posso ir para os EUA e comprar bebida, pra beber na rua com a garrafa dentro daquele saquinho de pão. Isso sim é legal.

OBA

Mas tudo bem, você gostando ou não do seu aniversário, ele chegará, te fará mais velho(a), fará mais pressão para que você engate numa carreira, monte uma família e perca cabelos com seus filhos que farão sexo sem camisinha e, com sorte, só pegarão sífilis. (Tá, mentira, envelhecer é legal, você pode proibir seus filhos de praticarem qualquer ato babaca que você já praticou, mas eles vão te desobedecer, quebrar a cara e você dirá “EU TE AVISEI, SEU BONITINHO”)

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