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Receber a notícia não é a pior parte como todos acham. Porque não parece real, ela achava que era um sonho, um pesadelo, uma brincadeira, câmera escondida do Silvio Santos. Mas não verdade.

Ela chegou na minha casa e ficou na sala, olhando para a tv e esperando. Todos em volta corriam, não queriam parar para pensar sobre, e ela também queria poder se ocupar mas não deixaram: “você não precisa fazer nada hoje”. Então ela ficou “assistindo” tv e aguardando até a hora de sair, chorou um pouco.

“Será que é verdade?”

No velório tinha muita gente. Ela sempre gostou das pessoas, de falar e conversar e contar piadas, sempre teve a boca suja e adorava de ver como todos reagiam aos palavrões. Os parentes e amigos vinham conversar, ela agradecia a atenção, jogava um pouco de papo fora e partia para o próximo grupo de pessoas.

O choro veio novamente quando o caixão chegou. Como assim era ele ali? Com aquela cara calma, como se estivesse só dormindo depois do almoço, esperando o jogo do Santos? “Por que ele? Por que aconteceu comigo?” e precisou sentar um pouco.

“Por que eu preciso aguentar tudo isso?”

No caminho para o cemitério o carro foi meio quieto, às vezes tentavam puxar assunto porque o caminho era longo: não é fácil achar um lugar bonito e facilmente acessível. Ela não ligava para a distância, afinal seria ali que ele descansaria, consideravelmente longe, mas na paz da distância dos prédios, do trânsito e do barulho das cidades. Igualzinho a Cianorte, onde eles moraram por tanto tempo.

Era difícil digerir tudo aquilo, ela queria poder trocar de lugar. “Eu já vivi bastante, eu que estou com problema no joelho e já não posso andar muito”, na barganha interna ela esqueceu que ele já tivera um derrame e estava com Alzheimer.

“Mas ainda quero trocar de lugar. Ou ir junto”

O pior aconteceu quando o caixão começou a descer. A verdade a machucou como ninguém nunca tinha feito e dificilmente fará. Ela quase caiu, foi amparada pelos netos, e chorou e soluçou até a dor tomar conta do corpo todo, assim ela não a percebia mais. O estupor era forte, ela resolveu deixar tudo para lá.

“Pra que me preocupar? Nem dor eu sinto”.

Muitos meses dormindo na casa das filhas, passando os dias longe de casa. Com o tempo veio a conclusão de que a vida não para, ela podia fazer suas coisas depois de tudo, não era crime viver.

A verdade é que até hoje ela não sabe se aceitou ou se continua no mesmo estupor desde o momento em que jogou o punhado de terra sobre o caixão. Se realmente há um meio de superar e viver como todos dizem que ela deve fazer.

Mas ela não quer saber, não liga, é muito paciente e está só esperando. O que, exatamente, ela não sabe, mas sabe que está chegando e o estupor vai passar. Infelizmente não será bom para todo mundo, mas ela sabe que alguém vai entender e ficar feliz porque a dor finalmente terá ido embora e ela o encontrará por lá, o lugar igualzinho a Cianorte, onde eles moraram por tanto tempo.

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agosto 15, 2013 · 5:55 pm